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«É impressionante a coragem das nossas crianças que ainda param para ler»

Publicado a 08/07/2022, na categoria: Destaque, Entrevistas, Nuvem de Letras

Uma conversa cheia de pontas por onde pegar ou não fossem os interlocutores, Rui Correia e António Fernando Nabais, professores e autores da coleção Contos Arrepiantes da História de Portugal, dois conversadores natos, com um novelo de histórias para desenrolar. Ler requer vagar e coragem. O humor agarra, mas o rigor também. Nunca devemos mentir a uma criança. O que importa é a coerência de uma história bem contada. «A ambição maior de um historiador é contar uma história com a aparência da simplicidade.» O mesmo se poderá dizer de um escritor.

 

Como nasceu a ideia para esta coleção?

Como todas as grandes ideias, nasceu de uma conjugação de fatores que poderia ser descrita por um astrólogo como um alinhamento astral. Um dos autores dos textos, professor de História, passou a vida a acreditar na importância do humor, colecionou centenas daquelas pequenas grandes histórias que fazem com que as pessoas se cheguem bem pertinho da História e sonhava com livros em que tudo isso se pudesse misturar. A editora Joana Gonçalves tinha, também ela, o mesmo desejo e contactou o professor das histórias. Assim nasceram os Contos Arrepiantes da História de Portugal. A estes dois juntaram-se um ilustrador deserto para desenhar humores e horrores e um outro professor, de Português, apaixonado pelos horrores e pelos humores da História. O resto é história.

História e Português, as disciplinas que lecionam, parece ser a aliança perfeita para uma coleção de sucesso. A História aprende-se melhor quando é bem contada?

Todo o livro de História é uma interpretação do seu autor. E como quando se canta uma canção. O cantor opta por esta ou aquela melodia, dentro de uma harmonia que permite inúmeras soluções. Por isso é que há tantas versões de uma mesma canção. Com a História passa-se o mesmo. Toda a interpretação é, na sua essência, um percurso de alternativas. O historiógrafo, aquele que escreve história, tem de explicar com clareza por que razão tomou as suas decisões e escolheu a sua alternativa, a sua melodia, em vez das outras. Dito de outra forma, tem de nos fazer esquecer as restantes alternativas que teriam dado livros diferentes, com títulos diferentes. Quanto mais claras e fundamentadas estiverem essas decisões, melhor se conta a história. A ambição maior de um historiador é contar uma história com a aparência da simplicidade. Esse é o seu desiderato: contar uma história de tal modo que chegue mesmo a parecer que não podia deixar de ser contada. É sempre mentira, mas ficamos com uma maravilhosa leitura.

Enquanto professores, como veem a relação das crianças com a leitura?

Ler demora. O que ler tem de maravilhoso é que demora. Dá-nos tempo para compreender tudo ao nosso ritmo e não ao ritmo de quem quer que seja. Nem sequer do seu autor. Um livro vive de vagar. É preciso vagar para ler. E o nosso não é o tempo do vagar. É o tempo da constante euforia. As crianças estão cercadas de estímulos irresistíveis com os quais dificilmente se consegue competir. A tecnologia trouxe-lhes universos de imaginação, fantasia e cumplicidade que quase parecem invencíveis. No meio de tanto ruído e tanto frenesi, pedir a uma criança que pare para ler parece uma excentricidade. Até ao dia em que ela mesma encontre essa disponibilidade para o vagar, não encontrará tempo para ler e realmente deixar que as palavras escritas invadam as suas emoções. E mesmo assim, elas fazem-no. É impressionante a coragem das nossas crianças que ainda param para ler. Cabe aos adultos proporcionar estes encontros românticos com o vagar e com o livro.

A História está cheia de violência e de episódios verdadeiramente arrepiantes. É possível fazer humor com a desgraça?

Nada é mais vizinho da desgraça do que o humor. A pior coisa que se pode fazer num funeral é rir. E a melhor coisa que se pode fazer num funeral também é rir. Perseguir o lado irrisório, risível, ridículo de um drama não significa não alcançar ou não compreender a sua relevância ou tentar minimizá-lo. Representa uma superação e um confronto inevitáveis. O mundo e a vida são de tal forma incoerentes, cruéis e injustos que pensar em resignar todas as desgraças ao pranto e ao lamento atirar-nos-ia para um estado incessante de depressão crónica. Uma abdicação perpétua. Pelo contrário, o humor resgata a seriedade do drama. Enfrenta-o e resiste-lhe. Não cede e propõe a insubmissão como medicamento para a dor. O humor não foge do problema. Diz-lhe que vai todo nu.

O humor é uma ferramenta para chegar às crianças. Que outras ferramentas elegem para as cativar?

Há muitas coisas irresistíveis. O amor é a primeira. A estima e a amabilidade. Mas há muitas outras. Uma de que gosto muito é o rigor. Nunca mentir a uma criança. Garantir que o que se lhe conta aconteceu mesmo tem um poder invencível. Não é só com as crianças. É com todos nós. Quando vemos um filme e ele nos ameaça no princípio que se trata de uma história «baseada em factos reais», ficamos logo com outra disponibilidade. Mesmo a criatividade mais fantasiosa vive absolutamente de rigor. A coerência interna de uma fantasia não pode ter falhas. Nem a mais pequena. As crianças apercebem-se delas e descartam-se com altiva velocidade. As crianças são os cientistas da imaginação. Lidam com a realidade da imaginação, qualquer que ela seja.

 

Idade Média Medonha

12,56

O primeiro volume de uma coleção cheia de episódios repelentes, desgraçados, tenebrosos, viscosos, nojentos, horripilantes, imundos, malcheirosos, formidolosos, enlameados, brutais, asquerosos e que chegam mesmo, por vezes, a ser desagradáveis da História de Portugal

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