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Raquel Patriarca e Sérgio Condeço: um texto pousado na gaveta à espera dos pássaros

Publicado a 01/02/2024, na categoria: Entrevistas, Destaque, Nuvem de Letras

Um texto pousado numa gaveta, uma coincidência de vontades entre autora e ilustrador (mais parecidos do que aparentam), pássaros à espera de voar: eis como os leitores podem segurar nas mãos um tesouro chamado Os avós são as pessoas preferidas dos pássaros (ed. Nuvem de Letras).
Uma viagem cheia de poesia e ternura ao universo de avós e netos, na qual todos nos podemos reconhecer. Os netos que somos ou fomos, os avós que somos, seremos ou imaginamos. 

 

Como surgiu a ideia para este livro?

RP: Há já alguns anos, escrevi um conjunto de textos e histórias em que os personagens eram avós e netos, a sua relação e as coisas que faziam em conjunto. Vieram estas histórias em resposta ao desafio de um amigo que me tinha ouvido, numa mesa temática de um festival literário, falar dos meus avós maternos e da forma como marcaram a pessoa em que me tornei. Não era esse o tema da mesa, o tema eram os livros, mas a pretexto dos livros chegaram memórias emocionais de pequenos gestos que, operados numa determinada fase da vida, podem vir a transformar-se em enormes linhas definidoras da personalidade de quem os guarda.
Escritos os textos – eram dez ou onze, sobre coisas diferentes – nasceu-me, já no espaço fora da tarefa, uma espécie de conjunto de aforismos sobre essa circunstância encantadora de ser avô ou avó e, claro, de ser neto ou neta. Pequenas reflexões que concentravam toda a luz e ternura das memórias e experiências que tinham dado origem ao trabalho anterior. O núcleo, se quisermos. O lugar onde batia o coração de todos os outros contos.
Guardei esse texto só para mim. Havia uma promessa de caminho para os outros, mas este era só meu. Não tinha outra função que não fosse fazer-me companhia e ajudar-me a resolver as saudades. Todas estas coisas foram parar à proverbial gaveta da espera, mas há textos que guardamos numa gaveta própria, que não é de esperar, é só de haver. Sabemos que existe e precisamos que exista. Ouvimos, cá de fora, as coisas que lá se dizem em murmúrio e consolamo-nos com isso.

SC: Em termos de ilustração, a ideia de pássaros, desenhar pássaros esteve logo aqui desde início. Já os desenhava por gosto e, com este texto, foi um dar-lhe asas. Eles também serviram como linha condutora da narrativa já que cada página podia ser uma história isolada sobre os avós. Escolhi uma paleta colorida porque os avós são alegria em equilíbrio com tons secos e técnica mista entre pintura acrílica com digital.

 

Como funcionou a interação entre autora e ilustrador?

RP: Conheci o Sérgio Condeço perto da serra da Estrela, onde passei uma parte da minha infância, e foi uma espécie de amor à primeira vista. A Adélia Carvalho, que é a culpada de nos termos conhecido, tem jeito para esta coisa de fazer fundir almas. O Sérgio é de uma boa disposição inabalável e recusa-se irredutivelmente a perder tempo ou energia com coisas que não valem a pena, e eu encantei-me por isso. Já depois de nos despedirmos o Sérgio perguntou-me se eu tinha algum texto infantojuvenil pousado na gaveta. Respondi qualquer coisa na onda do ‘nem eu tenho outra coisa!’. Ele pediu-me que lhe mandasse alguns e eu acabei por mandar só um. Este. Ele gostou, falámos sobre ele, mudei algumas coisas de lugar, substituí algumas palavras, e foi o Sérgio que fez a proposta do texto para edição.
Depois começou uma nova fase da vida deste texto, de trabalho em conjunto, de tomada de decisões e de nascimento da narrativa que as ilustrações do Sérgio vieram acrescentar às minhas palavras. Foi uma fase muito feliz porque me parece também feliz a forma como se conjugaram as duas visões e as diferentes linguagens, a do Sérgio e a minha.
Somos mais parecidos do que parecemos no primeiro contacto. O Sérgio é Peixes, como eu, e um poeta idealista, como eu. Um apaixonado pela vida, como eu. E um vidrinho de sensibilidade, como eu. Um campeão de rapidez entre a alegria do voo criativo e o fundo de poço do desencanto. Como eu, está bom de ver. Nunca seríamos capazes de viver debaixo do mesmo teto, mas entendemo-nos lindamente a trabalhar e o livro que fizemos juntos é a testemunha ideal disso mesmo.

SC: Bem demais!

 

Há algo das vossas memórias de infância presente na história?

RP: Há imenso, parece-me. Eu estou bastante entornada para dentro deste livro. Desde o arroz-doce até aos mindinhos tortos. Há muito da minha experiência como neta, mas também daquilo que observo na relação de outros netos com os seus avós, do meu filho, por exemplo, com os avós com quem orgulhosamente construiu e continua a construir muitas e boas memórias. O Sérgio, claro, leva-me umas voltas de avanço porque já conhece essa sensação encantadora que é o ser-se avô. Essa é a parte da experiência que ainda me falta e, até lá, ele terá de me emprestar o seu barco de piratas. Entretanto, vou cuidado das minhas árvores para que não faltem aos pássaros lugares onde pousar.

SC: Eu não tive muitas memórias com os meus avós até chegar a Portugal. A minha infância foi passada até aos 10 anos sem eles. Recordo-me depois, quando cheguei de Moçambique, de muitas coisas que só fazemos com os avós. Recordo-me da minha avó, perante a proibição do meu pai em que eu bebesse café, colocar chávenas cheias de ” café de cevada” às escondidas com duas colheres de açúcar amarelo.
Decidi colocar duas fotos antigas nossas (da Raquel e minha) numa das páginas como se tivéssemos acabado de brincar e, já agora, lanchar a seguir um pão com manteiga e uma chávena grande de cevada muito doce.

 

Que lugar ocupa a poesia da vossa vida?

RP: A poesia ocupa um lugar enorme na minha vida. Permite-me lidar com as coisas que não compreendo, e que são muitas, e com as coisas que não controlo, que são mais ainda. A poesia permite-me encontrar luz e alegria e força quando preciso delas. Não falo só da poesia que escrevo, mas também, e talvez sobretudo, da poesia que leio. É na poesia que encontro as palavras certas para compreender o que penso, mesmo que seja só para mim, e para dizer o que sinto quando tenho de o explicar aos outros.
Lawrence Ferlinghetti escreveu, certa vez, que a poesia é a distância mais curta entre duas pessoas. Nisso, concorda com a poeta Ana Luísa Amaral quando diz que a função da poesia é unir o que está separado. Isto parece-me que diz tudo e explica bem a minha necessidade de poesia. Eu preciso de me sentir conectada com os outros. Não preciso de estar sempre no meio de pessoas, às vezes preciso até de estar sozinha, mas raramente me sinto só. De alguma maneira, a poesia faz-me sentir acompanhada, compreendida, parte de algo maior do que eu.

SC: Na minha vida pessoal tenho a sorte de ser amigo da Raquel Marinho (O poema ensina a cair) e com ela tenho conhecido muitos poetas. Fazemos em casa jantares poéticos em que cada um traz livros e vinho. A poesia entra devagar se a deixares, mas depois já não te larga.

 

Como propõem trabalhar este livro nas escolas?

RP: Acredito que a relação mais forte e duradoura que criamos com os livros é sempre emocional. Nesse aspeto particular, este livro é fácil de trabalhar porque muito rapidamente apela ao magma de memórias, experiências, ternuras e saudades que cada leitor traz, mais ou menos dormente, dentro de si. Poderá haver coisas de reconhecimento imediato e paralelismos diretos, mas haverá muito mais coisas novas a partilhar, a acrescentar. Diferentes geografias, épocas e circunstâncias marcaram as vivências próprias de cada parelha de avós e netos. A experiência que para uns seria uma aventura no sótão, para outros será o primeiro passeio de barco ou as visitas diárias a um determinado lugar, ou uma vindima, ou fazer bolos, ou jogar à bisca ou ao burro deitado.
Com a lembrança destes pequenos detalhes da vida, vem uma imensidão de emoções e de aprendizagens, possíveis agora de partilhar, de registar, e até de compreender de outra forma. Desafiar os nossos leitores a esse exercício de memória e emoção, de encontro das palavras para descrever uma coisa e a outra, o acontecimento e o sentimento, para o registar como testemunho de algo que vale a pena guardar, isso parece-me poesia.
Penso, também, que é um bom livro para trabalhar entre diferentes gerações. Os avós de hoje merecem sentir orgulho de si próprios e a gratidão dos netos. E também eles foram, em tempos, netos de outros avós, como se, de muito longe, chegasse até nós uma cadeia de relações, memórias e ternuras que, por sua vez há de continuar depois de nós, para além de nós.

SC: Desde que abri o Cebola em Alvalade em Lisboa e decidi contar histórias à quarta feira, um mundo abriu-se. A melhor forma é contar a história, seja ela qual for, com espanto, e usar as ilustrações como um trapézio para ir saltando sempre de página em página.

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